1964...

Atualizado: 3 de mar.

Luiz Antonio Stephan

Tinha eu 14 anos de idade quando em uma manhã, bem cedinho, acordei com o rádio ligado com o som bem alto era dia 31 de março de 1964 e meu pai, Arlindo, ouvia, preocupado, um discurso em altos brados do Governador Carlos Lacerda, encurralado no Palácio Guanabara, incitando tropas externas (e ditas “inimigas”) a ataca-los, que estariam esperando. Foi minha primeira notícia da Revolução. No mesmo dia, mais tarde, ficamos sabendo que as tropas militares sediadas em Juiz de Fora tinham se deslocado para Paraibuna, divisa com o Estado do Rio e estava preste a acontecer um combate com o exército do lado de lá (Rio).

Nos dias que se seguiram houve uma intensa movimentação no “Açougue Glória”, empresa de minha família, no preparo de milhares de quilos de produtos suínos, requisitados pelo exército para serem enviados para o “front”.

Sucederam-se as notícias: - Que o movimento tinha começado em Juiz de Fora pelo General Mourão e a população se orgulhou disso. – Que as tropas da divisa, em Paraibuna, tinham se ajustado e partido para o Rio para defender a Revolução.- Que o governo de Jango tinha caído e o comunismo expurgado do país. Que havia um governo provisório e que os militares comandavam o Brasil e que muitos políticos e agitadores estavam presos ou tinham partido para outros países. Glorioso e exuberante foi o desfile das tropas em sua volta triunfante para a cidade: Centenas de veículos do exército, ônibus da Útil e de diversas outras empresas e caminhões transportavam os militares vitoriosos que atravessaram a cidade, pela Av. Rio Branco, aplaudidos e ovacionados por milhares de cidadãos exultantes com o fim do comunismo.

De uma maneira geral, nós, o povo, não podíamos reclamar dos governos militares que se seguiram, dava para viver bem, tinha-se boa educação e o emprego e renda eram satisfatórios.

1968- Esquerda festiva

Em 1968, já era um jovem, aos 18, me encantavam os discursos, músicas e poesias dos artistas, cantando a “liberdade”. Aflorava o lado rebelde e romântico da juventude quando ouvia o disco “o Canto Livre de Nara” (Livre grifado em vermelho) e “Caminhando Contra o Vento” de Geraldo Vandré. Pô, o Pasquim eu não perdia um. As manifestações da esquerda "festiva" eram cativantes.

Numa sexta feira, por volta de 11 horas, descia eu a rua Halfeld, me dirigindo ao trabalho, na Batista de Oliveira, quando encontrei uma esfuziante passeata de estudantes, liderada por uma ”turma do Rio” com fortes palavras de ordem esquerdista e segui atrás dos manifestantes até as escadarias do Theatro Central onde permaneci por alguns momentos. Tudo muito impressionante, mas, eu embora desejasse participar da festa, não podia, pois, minhas obrigações com o trabalho já eram prioridade.

Na segunda feira, um amigo da família, Silvio, que trabalhava na Polícia Federal, foi no “Jacobana”, estabelecimento comercial da família na época e, junto com meu tio Arnaldo me passaram um “pito” pois, eu tinha sido fotografado naquela manifestação e poderia ser preso, e que eu não deveria mais me envolvesse com nessas atividades. Como tinha perdido meu pai recentemente a

responsabilidade de representar a família nos negócios pesou mais e, naquele momento, encerrou-se minha fase “esquerdista”. Durante os anos que se seguiram os militares se sucediam na presidência e os outros cargos políticos eram eleitos e sempre se ouvia muita notícia boa: grandes obras, nível de desemprego não preocupava e outros índices indicavam um Brasil que ia muito bem. Segurança, então, nota 10.

Falou-se, também, de julgamentos de terroristas, aqui mesmo em Juiz de Fora, guerrilha no Araguaia, explosão no Rio Centro e que haviam pessoas desaparecidas e torturadas.

Durante muitos anos ouvi relatos, sobre os motivos que levaram à revolução em 1964: - Um fazendeiro do Piau, que tinha pavor dos comunistas disse que eles iam em sua fazenda para lhe dizer que suas terras seriam divididas entre eles, em tom de ameaça. – A um empresário bem-sucedido, que tinha alguns imóveis, eles diziam que o proletariado tomaria suas propriedades e um sindicalista, quase analfabeto de Juiz de Fora afirmava em “alto e bom tom” que pararia o Brasil na hora que quisesse.

Mais tarde entendi que a revolução de 1964 foi inevitável e, simplificando, se tratou de um conflito entre a direita e a esquerda sendo que a primeira foi vitoriosa.

1985

Em 1985 os militares devolveram o Brasil aos civis. Foram marcadas as eleições para presidente, mas, a primeira seria indireta, ou seja, o presidente foi escolhido pelo congresso, candidataram-se: Paulo Maluf pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido apoiado pelos militares e Tancredo Neves, do MDB (Movimento Democrático Nacional), partido da oposição, que ganhou a eleição.

Daí em diante o Brasil atira-se numa turbulenta democracia: Já no seu primeiro momento, o presidente eleito falece antes da posse e o vice José Sarney nos é empurrado, num processo no mínimo estranho e faz um governo desastroso, principalmente na economia.

1988

Estou com 38 anos e acompanho pelos jornais e até pessoalmente indo em Brasília, como presidente do Sindicomércio JF a preparação da Constituição Federal, elaborada pela Assembleia Constituinte e elaborada sob o domínio da Social Democracia, com a justificativa de promover justiça social, gera privilégios a alguns grupos promovendo sérios desequilíbrios entre os direitos e os deveres dos cidadãos. Só percebi o desastre da carta em 2015.

1990

Aos 40 anos votei pela primeira vez para presidente: Collor de Mello, fiasco. Governo desastroso e Impeachment.

Sendo os grupos privilegiados muito representativos e formadores de opinião, a esquerda, empoderada, governa o país por 13 anos liderada pelo PT (Partido dos Trabalhadores) que aparelha todo o estado com seus seguidores para possibilitar e capitalizar projetos que permitam a extensão e a perpetuação de poder.

A plena abertura política de 1985 e o fortalecimento desses grupos representativos de esquerda gerou um fato não muito comum em conflitos, o “derrotado” assumiu o controle da história e passou a descrever os fatos de acordo com sua perspectiva e seus interesses. Foi aí que mudaram o nome de “Revolução de 1964” para “Golpe Militar de 1964”.

2018

A “quebra” da Social Democracia, pelo desequilíbrio entre o desejo de justiça social e a falta de recursos e o desgoverno e corrupção da administração do governo PT o país vai a bancarrota o leva a população a "volta à direita" elegendo Bolsonaro.


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